domingo, 11 de março de 2012

Primavera e outono cristão

3 comentários
A internet não faz revoluções, mas com certeza as estimulam, tem sido assim no mundo todo e  não tem sido diferente com as igrejas.

A rede mundial de computadores existe há cerca de seis décadas, mas é na ultima década que ela se tornou popular, seja pelo aumento crescente de computadores nas residências, a telefonia móvel permitir o acesso a internet, o surgimento das lan-house’s e/ou políticas públicas de inclusão digital.

Hoje em dia as informações circulam numa velocidade impressionante, dificilmente as pessoas conseguem surpreender outras pessoas com uma notícia/fato novo. A internet também trouxe a luz muitas coisas que estiveram em oculto por muito tempo, o número de segredos no mundo diminuíram significativamente.

O catalisador (acelerador) disso tudo são as redes sociais, tal como, Facebook, Orkut e Twitter, que removeram a mordaça daqueles que não tinham voz e ajudando assim a criar  uma resistência a repressão aos regimes autoritários.

Prova disso é a “Primavera Árabe”, uma série de protestos organizados a partir do Facebook e Twitter, que mobilizaram milhões de pessoas contra regimes ditatoriais do Oriente Médio e África, e puseram fim as ditaduras violentas no Egito, Tunísia e Líbia e promoveram mudanças politicas noutras.

Outro exemplo da força da internet é o site Wikileaks, que publicou diversos documentos secretos da diplomacia de alguns países e com isso criou uma série de “saias-justas” aos governos envolvidos que teve que se justificar perante a sociedade.

Pois bem, adentremos ao assunto desta postagem, a relação da internet e as igrejas.

Algumas igrejas enxergaram na internet um ambiente a mais para evangelização das pessoas e anunciam através dela Jesus Cristo como salvador de todo homem e a vinda do Reino de Deus, outras estão discreta e timidamente presentes na internet, e há ainda aquelas que sequer possuem site próprio.

Não sei se é exagero da minha parte, mas comparo a popularização da internet pelos cristãos ao feito de Martinho Lutero quando desobedeceu a Igreja Católica e verteu a Bíblia para o idioma alemão, popularizando a Palavra de Deus, diminuindo a exclusividade da interpretação bíblica somente aos padres.

Hoje em dia qualquer um pode ter um blog e manifestar suas opiniões através dele interagindo com pessoas que pensam da mesma forma, ou então, pensam de maneira diferente da sua. 


Há blogs que tratam de espiritualidade de todos os gêneros, portanto, para todos os gostos.

Hoje, falar da Palavra de Deus não é mais exclusividade de padres, pastores, cooperadores, anciões, presbíteros, bispos e auto-apóstolos, entre as paredes dos seus respectivos templos, muitas das suas ovelhas tem falado da Palavra de Deus na internet e, algumas vezes, tem feito abertamente duras criticas aos seus lideres ou as instituições religiosas, cobrando deles atitudes éticas compatíveis com a posição que ocupam.

Antes de falar dos outros, vou falar um pouco de mim.

Eu era membro da Congregação Cristã no Brasil, uma denominação pentecostal ítalo-americana, bastante conservadora, tanto nos assuntos relacionados à fé quanto ao uso da internet para deles tratá-los, pois, segundo o que eramos ensinados tudo o que  precisávamos era ensinado na igreja, portanto, não eram necessárias “outras luzes” (leia-se literaturas, sites, etc).

Meu primeiro contato com um site que proporcionava uma experiência critica, argumentativa e estimulava o exame sistemático das Sagradas Escrituras foi no extinto fórum “Juristas-CCB”, a partir daí fui perdendo o medo de pensar, aprendi que ter uma fé cega é pior do que não ter fé nenhuma.

Logo depois comecei a visitar o Blog do Daniel, e como todo “bom ccbeiano” eu só lia matérias produzidas por ccbeianos, mas em 2008 não havia muitas opções de blogs cristãos mantidos por ccbeianos, além do Blog do Daniel, existia o Blog do Charles e o Blog da Reforma, mas pra ser sincero nunca gostei do estilo de abordagem do Ricardo Adams, tanto é que se eu disser que nos últimos 3 anos li 3 textos dele na integra estarei exagerando.

Em 2009 inspirado no Blog do Daniel criei meu blog, logo fui conhecendo outros blogueiros ccbeianos, o Ricardo, o Hélio, o Juliano, entre outros. Com eles também interagi no extinto fórum “CCB Sem Censuras” que chegou a mais de 4000 membros, e que hoje está sob nova direção, com poucos membros e quase sem movimento.

Pode parecer simplório, mas em se tratando de CCB, naquela época ter blogueiros ccbeianos e freqüentadores de fóruns era algo totalmente incomum e audacioso, hoje ainda não é algo que fazem com tanta liberdade, tanto é que temendo represálias, poucos ousam usar nomes reais ou fotos, pois, sempre fomos ensinados que questionar o ministério ou a igreja é o mesmo que blasfemar contra o Espírito Santo, isso algumas vezes me atormentou, até que me livrei da prisão sem muros chamada religião, passei a continuar respeitando os ministros, mas os tirei do pedestal, passei a buscar respostas diretamente na Bíblia sem acreditar que a letra mata, e assim descobri que qualquer um é capaz de ler, compreender e experimentar a Palavra de Deus.

Se por um lado nos últimos anos percebemos o aumento no numero de blogueiros ccbeianos rompendo a barreira do medo e tormento  que passaram a se expressar livremente sobre a Palavra de Deus, a doutrina, postura de ministros e instituição, por outro lado notamos que mesmo sendo recomendados a terem cautela quanto ao uso de redes sociais os membros da CCB têm mostrado a cara e discutindo abertamente os assuntos relativos à fé, a sua igreja e o meio evangélico como um todo.

Podemos verificar isto nos blogs citados nesta postagem, todos eles com um numero expressivo de seguidores públicos, ou então, no na comunidade da CCB no Orkut com mais de 50.000 membros. 


Também é possível medir o interesse dos membros e o poder da internet para informar através do lançamento do site da CCB - Ministério Jandira , lançado em agosto do ano passado e que rapidamente atingiu milhares de acessos, hoje são quase 160 mil acessos. O que demonstra que as circulares internas emitidas para leitura nas congregações não esclareceram o suficiente e/ou o povo queria saber mais sobre o assunto. 

Mesmo em fóruns e na comunidade no Orkut as discussões mais polêmicas acabam sendo moderadas, mas hoje algo pela manhã algo me chamou a atenção no Facebook, um viral que está sendo compartilhado pelos membros da CCB, no qual os membros demonstram seu repúdio e questionam o ministério sobre a prefeita de Jacarezinho / PR e outros políticos usarem o púlpito durante a re-inauguração do templo que estava em reforma. O motivo de tal indignação é que nos últimos 100 anos a CCB foi totalmente apolítica e as honras concedidas a prefeita não é a mesma que é dispensada as mulheres membros da CCB.

O que me espantou não foi o repúdio publico dos membros, e sim que nem todos os que compartilharam o conteúdo até o momento são jovens, alguns deles tem quase 50 anos como integrantes da centenária denominação, isso demonstra que a insatisfação não é apenas o questionamento juvenil daqueles que questionam o mundo por qualquer coisa.

Pois é, os tempos mudaram, a internet está aí, e o povo está se expressando, tanto sobre o que é bom quanto o que é ruim, embora oficialmente a CCB esteja fora da internet, sabemos que isto não significa que ela não esteja atenta ao que dela se fala na rede, como dito no inicio da postagem, a internet não promove revoluções, mas com certeza as estimulam.

Com tanta gente olhando, compartilhando e se expressando, um modelo de igreja centralizador e que nas ultimas décadas ficou em silencio diante das criticas de seus membros já não se sustenta mais, creio ser impossível a CCB ser da mesma maneira pelos próximos 100 anos, afinal, uma igreja não é formada apenas de templos e ministros, é formada também por membros que, aliás, são a maioria.

As denominações que não se atentarem para a “Primavera Cristã”  experimentarão o “Outono Cristão”.
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Leitura Recomendada: Relato de uma reunião com o ministério

3 comentários:

Regina Farias disse...

Olá, Mário.

Gostei demais deste texto! Quanta lucidez!

Aliás, falar da tua lucidez é repetição que não me canso nunca e me alegra sempre.

Lucidez esta, que somente o Espírito de Deus pode conceder, e que LIBERTA das 'crentices' que neurotizam, segregam e aprisionam cada vez mais a mente e o espírito de quem se deixa fascinar pela religiosidade.

Vou colocar o link lá no meu blog, ok?

Deus te abençõe!

R.

Mario disse...

Oi Regina,

Mais uma vez agradeço, e fica a vontade.

Fique na paz de Deus!

Mario

Ricardo Alexandre disse...

Elias achando que só ele havia restado e sentindo-se sozinho chegou a pedir a morte. Mas Deus lhe mostrou que haviam outros tantos que permaneciam fiel ao seu nome.

Antes da Internet me sentia como sozinho como Elias. Depois descobri que existiam mais que pensavam como eu.

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