sábado, 17 de janeiro de 2009

Os evangélicos dão o tom

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As igrejas evangélicas tornaram-se os novos celeiros de músicos eruditos no Brasil
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(Revista Veja 07/06/2007)
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As igrejas evangélicas estão mudando o comportamento do brasileiro em vários aspectos – o mais inesperado deles é a música clássica. Na última década, instrumentistas que tiraram os primeiros acordes em salas de aula improvisadas em igrejas passaram a representar um porcentual cada vez maior nas principais orquestras nacionais. Três de cada dez músicos da Orquestra Sinfônica do Paraná, por exemplo, freqüentam alguma igreja evangélica. Dos catorze profissionais recém-contratados pela Sinfônica de Porto Alegre, quatro são evangélicos. Eles também representam uma gorda fatia de 35% dos músicos brasileiros da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). O porcentual está bem acima dos 15% que os fiéis dessas igrejas ocupam no total da população brasileira, de acordo com o IBGE. Dois fatores explicam a concentração de evangélicos no meio erudito. O primeiro é a falta de um ensino musical de qualidade nas escolas brasileiras, o que limita tanto a formação de profissionais como a de ouvidos treinados para apreciá-los. O segundo é a perda de interesse dos pais de classe média pelas aulas particulares de piano ou violino, que no passado eram um item comum na educação dos jovens. Nesse vazio musical, as igrejas evangélicas se tornaram um dos raros locais onde se investe em formação musical clássica no Brasil.
A iniciação musical da família de Roberto Minczuk, maestro da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), do Rio de Janeiro, por exemplo, deve bastante à religião. Roberto começou tocando trompa na Assembléia de Deus Russa no Brasil, freqüentada por famílias de imigrantes do Leste Europeu, em São Paulo. Incentivados pelo pai, José Minczuk, regente do coral da Polícia Militar, Roberto e seus irmãos eram membros da orquestra que acompanhava os cultos. Cinco dos oito filhos de José tornaram-se músicos profissionais: Arcádio e Eduardo são instrumentistas na Osesp, Cristiane é cantora lírica, Ester produz eventos musicais e Roberto, considerado um dos mais talentosos maestros do país, pertence ao escasso time de brasileiros convidados para reger grandes orquestras internacionais. "Meu pai fazia os arranjos e nós acompanhávamos os cultos tocando hinos orquestrados, obras sacras consagradas e canções folclóricas russas", diz Arcádio.
Nas igrejas evangélicas, a música está intimamente ligada ao culto. Os conjuntos constituídos por fiéis, sobretudo nos templos pentecostais, são geralmente compostos por instrumentos de sopro, tradição herdada das bandas musicais comuns nas cidades de interior. Em parte devido a essa origem, os músicos evangélicos concentram-se nas seções de metais e madeiras das orquestras brasileiras. As igrejas que mais formam músicos são a Assembléia de Deus, a Igreja Batista e a Congregação Cristã no Brasil. Nas duas primeiras, os fiéis aprendem a tocar desde hinos evangélicos orquestrados até peças consagradas da música sacra, como as compostas por Johann Sebastian Bach. Mais restritiva, a Congregação Cristã no Brasil só permite a seus adeptos tocar as 450 músicas que compõem seu hinário. A igreja dá apenas o primeiro impulso aos futuros músicos de orquestra. "Depois de dois ou três anos de estudo, se o aluno mostra talento e disposição, nós o incentivamos a procurar uma escola de música para aprimorar o aprendizado", diz Fábio Guedes, maestro da orquestra da Assembléia de Deus da Vila Ré, em São Paulo.
O resultado é que as principais escolas de música também estão se enchendo de estudantes evangélicos. "Já tive classes em que 80% dos meus alunos vinham da mesma igreja", diz David Alves, professor de música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trompetista da Orquestra Petrobras Sinfônica e da OSB, Alves é também diácono da Igreja de Nova Vida. No Conservatório de Tatuí, no interior de São Paulo, que tem 3.000 alunos, quatro em cada dez estudantes de música clássica são evangélicos. Por outro lado, eles são raros nos cursos de música popular. "O resultado dessa invasão é que o perfil dos alunos de música erudita está mudando", diz João Guilherme Ripper, diretor da sala de concertos Cecília Meireles, no Rio de Janeiro. Até a década de 70, predominavam nas salas de aula os jovens de classe média. A expansão das igrejas evangélicas nos anos 80 fez aumentar o número de estudantes de baixa renda. Em geral, eles entram nas escolas com bom domínio técnico dos instrumentos, mas com pouco conhecimento de teoria musical.
Heliton Costa, dono de uma escola de música e maestro da Banda Municipal de Itaberá, no interior de São Paulo, era pedreiro quando aprendeu a tocar saxofone na pequena igreja da Assembléia de Deus de sua cidade, de 20.000 habitantes. Incentivado pelos amigos, decidiu aprofundar seu talento no Conservatório de Música de Tatuí, onde se formou em saxofone, teclado e regência. "Eu ainda trabalhei como pedreiro nos quatro primeiros anos de conservatório", diz Heliton. Há um antigo e estreito relacionamento entre a música clássica e os vários ramos nascidos da reforma protestante, no século XVI. O compositor barroco Johann Sebastian Bach, autor da Missa em Si Menor, bastante tocada nas igrejas católicas, era luterano. Essa também era a religião do alemão Felix Mendelssohn, autor da Marcha Nupcial, sem a qual nenhuma cerimônia de casamento está completa. O período dourado da música clássica está igualmente repleto de grandes compositores católicos. Mas foram os protestantes que deram uma dimensão popular à música sacra, ao substituir o latim pelas línguas vernaculares e simplificar as músicas nos corais das igrejas. Dessa forma, os fiéis puderam começar a cantar juntos.
A proliferação de orquestras evangélicas coincidiu com um bom momento no mercado de trabalho para músicos eruditos. A profissão ganhou novos atrativos depois do colapso da União Soviética, em 1991, que permitiu às orquestras brasileiras contratar excelentes músicos do Leste Europeu. O resultado foram salários melhores para todos. Na Osesp, que passou por uma reestruturação em 1997, eles se multiplicaram por seis. Hoje, o salário médio inicial de um músico de orquestra no Brasil é de 2.000 reais. Apesar dessas oportunidades, não é difícil encontrar músicos evangélicos formados em boas escolas que voltam para lecionar nas igrejas onde aprenderam os primeiros acordes. Lá, ajudam a formar novos e melhores músicos eruditos. Nossas orquestras agradecem.

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