sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A CCB e sua contribuição para a música no Brasil

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Notícia publicada na Gazeta do Cambuí em 23/01/2009
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Motorista de ônibus é também luthier e fabrica instrumentos no quintal de sua casa
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Seu nome é José Carlos, mas é recomendado chamá-lo de ‘Ô do violino!’. Tudo porque, durante sua jornada como motorista de ônibus, o nome recebido logo que nasceu passa longe da boca de seus ilustres colegas de volante. No começo, achava o apelido estranho, porém com o tempo foi tomando gosto. Por ser um homem discreto, e porque não tímido, esconde dos passageiros da linha 3.33 sua outra habilidade, pouco a ver com a dos volantes. É luthier, aos moldes dos antigos, daqueles que ainda insistem em transformar o fundo da própria casa em fábrica de inventar instrumentos e sons. A paixão pelas duas profissões o fascina. Quando está na direção, tenta lembrar de cor a partitura do hino Sinto a voz divina. Ao contrário, quando manuseia o formão, que serve para esculpir a madeira, sente saudades dos roncos do ônibus. Pelo ouvido apurado de luthier, acredita roncar em ‘lá’. "Bem grosso, por sinal!".Hora de acompanhá-lo na construção de um instrumento de cordas. No quintal de sua casa, na pacata Rua Joanópolis, na Cidade Jardim, 'Ô do violino!' construiu dois quartinhos. O da esquerda, todo organizado, com instrumentos cheirando a novo, funciona como escritório. O da direita, onde a bagunça acontece e o aroma do ar tem um quê das madereiras, está instalada a oficina. Estando lá, fica difícil ao visitante repousar os olhos num único objeto por mais de dez segundos, tamanha a quantidade de goivas, fragmentos de instrumentos e bebês violinos em fase de gestação espalhados. Certas ferramentas, por exemplo, foram produzidas pelo próprio luthier. "A maioria delas é importada e custa caro. Na falta, acabei produzindo", conta José Carlos Garcia, de 43 anos. Pois é dele a invenção cem por cento tupiniquim de um abridor de friso. A serventia do adereço é dupla. "O friso serve para reforçar o acabamento e dar um ar de boniteza ao instrumento", ensina.Logo ali, na bancada daquela espécie de maternidade de orquestra, é onde nascem as preciosidades de cordas. Não só violinos, como também violoncelos, rabecas e violas de arco. Já fez cavaquinho, mas revela baixinho não ser sua praia. Ao relembrar de um nova missão que vem pela frente, completa: "Esse ano tenho o projeto de construir contrabaixos acústicos. Já restaurei alguns, mas nunca os produzi". Feito um médico, além de realizar o parto, 'Ô do violino!' trata dos instrumentos enfermos com a maior dedicação. Para ele, as peças que passam por restauro ou reforma são encaradas como crianças. De sua boca, nunca sairá que um violino quebrou ou que o violoncelo lascou, mas que ambos machucaram. A mesma sensibilidade pode ser apreciada quando, com o mesmo zelo que pega um bebê no colo, afaga a rabeca nos braços para tocar alguma hino de sua igreja, a Congregação Cristã do Brasil. Acorda cedinho, antes das oito, e tem a oficina como rumo certo. Entre um conserto aqui ou um ajuste de cordas acolá, 'Ô do violino!' não percebe a hora voar e permanece no espaço até o horário do almoço. Dá porta da cozinha, prestes a chamar o marido para comer, Roselene vez ou outra para no tempo e escuta o marido entoar as canções religiosas, enquanto José ensina um novo instrumento a cantar. A filha de 19 anos, Karla, nunca pensou em tomar um violino nas mãos, já que optou por aprender órgão, mas gosta do que escuta. "Me propus a ensiná-la, mas ela não quis saber", conta o pai, com um pingo de frustração. Retoma o orgulho no momento em que, na hora do aperto, as duas largam o que estão fazendo para ajudá-lo na oficina, seja na hora de passar o verniz ou dar aquele ajuste final nas preciosidades. A única que foge, logo na primeira estrofe dos hinos, feito o diabo da cruz, é Júlia, a gata de estimação, branca de olhos azuis. "Ela morre de medo do som do violino. Do violoncelo, não!". Das 14h54 à 1h05, o cenário é outro: as ruas. José Carlos é responsável pelo itinerário Terminal Central a Barão Geraldo. Segredo: no intervalo entre uma corrida e outra faz o que mais gosta. Na bolsa carrega braços inacabados de futuros instrumentos e um pequeno formão. "Levo para terminar de esculpir". Por conta disso, ao final da corrida, é necessário uma faxina daquelas debaixo do banco, pois sempre há perdido algum cavaco de madeira. Os faxineiros matam a charada: "'Ô do violino!' passou por aqui". Para provar sua habilidade artística, José Carlos leva algum de seus instrumentos para o ônibus. Depois de bater o cartão, reúne outros motoristas e cobradores num canto e entoa modinhas, que extrai de um livro de lições musicais, e, claro, hinos. "Tem um cobrador que toca cavaquinho. Quando ele leva o instrumento, a gente faz a festa".Na maternidade de 'Ô do violino!', não há registro de quantos instrumentos nasceram. Já perdeu as contas. "São mais de doze anos construindo instrumentos", tenta dar dimensão da quantidade. Tem instrumentos usados por músicos da Orquestra da Unicamp, por artistas em Minas e de diversos pontos de São Paulo, além dos instrumentistas da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas. No Seo Rosa, na Emílio Ribas, há uma raridade do luthier: um violino de oito cordas, produzido com a madeira do famoso jequitibá homônimo que florescia, até 1999, nas imediações da Prefeitura. "Fiz o instrumento, com o aval da Secretaria de Cultura da época, para que ele ficasse exposto na cidade". Não foi o que aconteceu, para o desatino de José Carlos. "Ficou trancado por seis meses nos armários. Por fim, resolveram me devolver, alegando não ter espaço na cidade para a exposição". Uma pena.
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